Hoje foi dia de assistir “Privacidade Hackeada” (The Great Hack), documentário original da Netflix sobre a interferência da Cambridge Analytica em processos eleitorais.

Dentro de tudo o que se pode discutir sobre tão intenso documentário, o aspecto que quero trazer para a discussão é o que eu chamo de “triângulo da ética”, que aprendi como sendo o “triângulo da fraude”. Para isso vou colocar o foco na pessoa da ex-diretora sênior Brittany Kaiser.

Brittany Kaiser é sem dúvida alguma uma jovem muito, muito inteligente e capacitada. Trabalhou em eleições desde os 14 anos e durante muitos anos trabalhou em organizações para a defesa dos Direitos Humanos.

Em 2014 foi contratada pela Cambridge Analytica e todo o seu conhecimento e capacidade foram aplicados de uma maneira que podemos resumir como, no mínimo, sórdida. 

O que aconteceu com Brittany? Alguns apressados já vão responder que o dinheiro falou mais alto – e é verdade. Mas vamos olhar com mais detalhe a partir do “triângulo da ética”?

Tenho visto algumas definições diferentes do triângulo da fraude, mas vamos ficar com a que eu aprendi no meu MBA em Gestão da Segurança Empresarial: motivação, meios e oportunidade.

Por que decidi chamar o triângulo da fraude de triângulo da ética? Porque o mecanismo é o meio. Falhamos eticamente ou aplicamos um golpe quando esses três fatores se encontram: o motivo para cometer o ato, o meio para executá-lo e a oportunidade de agir.

O que foi que mudou essencialmente em Brittany? Quando ela aceitou trabalhar para a Cambridge Analytica, os meios e a oportunidade estavam lá. Porém, ela já trabalhava com essas ferramentas em outras ocasiões e não fez esse uso extremo das mesmas. Essas circunstâncias não seriam nada sem o terceiro fator: a motivação. Sim, a motivação foi que eles pagaram o que ela queria, mas porque ela queria aquele montante tão grande que foi recusado por outros possíveis contratantes?

Porque sua família quebrou na crise de 2008, perderam a casa em 2014 e o pai fez uma cirurgia no cérebro que o incapacitou a trabalhar. Num país como os EUA, sem nenhuma proteção social, o destino da família era a rua e a indigência. 

Depois de todo o mal feito, ela se arrependeu e tornou-se importante colaboradora na investigação dos crimes e mudanças na legislação de proteção de dados. Eventualmente a sua moral original pôde voltar à tona agora que a família estava segura com todo o dinheiro que ela com certeza ganhou. 

O que me traz a valiosa definição de Mario Sérgio Cortella: Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: (1) quero?; (2) devo?; (3) posso? Nem tudo o que eu quero, eu posso; nem tudo que eu posso, eu devo; e nem tudo que eu devo, eu quero. Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é ao mesmo tempo o que você pode e o que você deve.

De resto, vejam o documentário. Excelente e necessário.

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