Quem fez essa pergunta foi a Dra. Ana Cláudia Quintana Arantes no seu TEDx de 2012 – A morte é um dia que vale a pena ser vivido.

Ela também brinca com a plateia quando diz, sobre esse tema tão difícil para nós: “Vamos combinar que todo mundo aqui sabe que vai morrer um dia, ou isso é novidade para alguém?”.

Essa imagem de “todo mundo vai morrer um dia” normalmente vem acompanhada no nosso pensamento de “not today satan, not today”.

Mas em época de Covid-19, a possibilidade de morrer hoje, de repente, parece mais real. Quem está preparado para isso?

A morte em tempos de Covid-19 é solitária. Quem for hospitalizado e vier a falecer, provavelmente verá os seus pela última vez no momento da hospitalização.

Negar a possibilidade de morrer (o que não quer dizer que não devamos colocar todos os nossos esforços e intenções na preservação da vida) não vai mudar o que tiver que acontecer. Não adianta fugir para Samarra, como no conto de John O’Hara:


Certa vez um mercador de Bagdá mandou seu servo ao mercado comprar provisões.

Pouco depois, o servo voltou, branco e trêmulo. Disse: “Mestre, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher no meio da multidão e ao me virar vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela me olhou e fez um gesto ameaçador. Agora me empreste o seu cavalo, vou cavalgar para bem longe desta cidade, a fim de evitar meu destino. Irei a Samarra, lá a Morte certamente não me encontrará”.

O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguia galopar, se foi.

Então o mercador foi até o mercado, viu a morte em pé no meio da multidão, seguiu até ela e disse: “Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?”

“Não fiz nenhum gesto ameaçador”, respondeu a morte, “foi uma reação de pura surpresa. Fiquei atônita ao vê-lo, aqui, em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra”.

(Conto-Versão de Somerset Maugham para “Encontro em Samarra” de John O’Hara).


Vou contar aqui o que fiz quando percebi que de repente eu poderia ir embora, mais rápido do que imaginava (em outro texto do blog já disse que imaginava viver até os 100 anos).

Preparei um documento para meus filhos, com todas as providências que eles precisarão tomar em caso do meu falecimento. Meu pai fez isso. Quando ele morreu, havia uma página com uns 10 itens manuscritos sobre providências que deveríamos tomar. A maior parte delas nós já havíamos conversado a respeito. Ele morreu com quase 87 anos, vítima de um câncer de próstata. Há muito que ele já se preparava e, exatamente por isso, só havia uma folha. Ele nos preparou para este momento, e sou grata por isso.

O meu documento, por sua vez, tem 10 páginas digitadas. Em verdade são dois documentos, cada um com 10 páginas. Um deles para as questões ligadas ao inventário, o outro sobre a gestão da empresa.

Minha ideia inicial era, na iminência de uma hospitalização, enviar o documento aos meus filhos. Não queria fazer isso antes, para que não ficassem ansiosos. Mas o processo de produzir os documentos foi muito bom para mim. Colocar os termos “corpo”, “óbito”, “agência funerária” assim escritos, foi libertador. Ao ir para o papel, saiu da minha cabeça.

Conversei com os meus filhos e ambos entenderam o propósito e, sem ansiedade, fizemos uma reunião online para explicação do conteúdo. Eles ainda são jovens adultos, não têm ideia de como muitas coisas funcionam (cá entre nós, tem muitos adultos que não entenderiam uma boa parte do que coloquei ali; a vida é muito complexa). Foi uma ótima leitura. O documento está agora compartilhado entre nós, e será atualizado à medida em que o tempo passe. De novo, estando no papel, saiu das cabeças. Claro que também foi uma oportunidade de eu perceber a complexidade da minha vida, e a necessidade de simplificar as coisas. Trabalho em andamento.

Também estou treinando meu sócio na empresa a fazer todos os procedimentos na minha ausência. Mais um movimento libertador.

E essa foi a minha constatação final: meu corpo pode não estar mais aqui, mas a vida segue. Assim é o ciclo da vida.

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1 Comentário

  1. Eu abri uma pasta do Dropbox compartilhada com meu filho onde coloco todos os dados de contas bancárias, aplicações, serviços a encerrar (água, luz etc.), quem me deve dinheiro (cauções), número de todos os documentos… Quando necessário eu vou lá e atualizo.
    Mas fiz isso antes do covid.


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