A produção espanhola da Netflix “A Casa” (Hogar, 2019) traz aspectos sobre os quais eu particularmente gosto de conversar: idade, carreira, persona.

O site omelete  faz um bom resumo da trama: “Javier Muñoz (Javier Gutierrez) é um publicitário de renome em Barcelona que está há meses desempregado e enfrenta dificuldades para se reestabelecer no mercado de trabalho. Acostumado com o sucesso anteriormente, Javier se vê substituído por jovens com ideias mais disruptivas para as empresas e sem a promessa de que algo mude em um futuro próximo. Ciente disso, Marga (Ruth Díaz), sua esposa, toma a decisão que o marido vinha postergando: é necessária uma mudança completa para que a família sobreviva. A contragosto, o casal deixa o apartamento luxuoso que tinha como residência e se muda para outro em uma área mais simples da cidade”.

Há muito que a nossa sociedade investe no prolongamento da vida. Cuidados com a saúde física, medicina, suplementos, vitaminas. Junto com o prolongamento da vida, um incentivo à eterna juventude. Tratamentos estéticos, cirurgias plásticas, cosméticos, hormônios. A expectativa de vida mundial passou de pouco mais de 50 anos em 1960 para mais de 70 anos em 2020.

Quando fiz 50 anos, entendi que estava provavelmente na metade da minha vida (se algo mais grave não a interrompesse). Decidi então fazer um tratamento ortodôntico novamente (já tinha feito quando adolescente) porque achei que valia a pena pelo tempo de vida que ainda teria.

A nossa sociedade ocidental nos cobra sermos ativos, lindos e produtivos no que antes era chamado de terceira idade. E mais: sempre com mais sucesso e dinheiro.

E assim vamos construindo essa persona que vive neste mundo, impossível de ser mantida, de tão antinatural que é. E aí acreditamos que essa persona somos nós, que ela nos define.

No filme, a persona do publicitário Javier é a sua casa, o carro, a família bonita, o trabalho de sucesso. Na impossibilidade de manter essa identidade, em vez de se relacionar com a realidade e fazer as adaptações necessárias, busca a solução de uma forma artificial (não vou dar spoilers, afinal esse é o mote do filme).

Isso me faz lembrar o caso de um executivo do Rio de Janeiro, em 2016. Depois de ter deixado um cargo em uma grande empresa para se juntar a um novo empreendimento, não conseguiu contratar um convênio médico para a esposa, que sofria de uma doença pré-existente grave. Na nova empresa, achou que estava perdendo poder e poderia ser dispensado, e não conseguiria prover à família aquilo que se esperava dele. Qual foi a sua solução: matou a esposa e se jogou da janela abraçado aos dois filhos. Sobre o caso, as pessoas dizem que ele estava doente. E eu pergunto: o que foi que o adoeceu?

A época em que vivemos, de uma pandemia de dimensões inéditas para a história recente, é um convite a olharmos para aquilo que é realmente importante. Um convite a aproveitar o que a vida apresenta em cada momento. Afinal, como diz uma famosa fábula de Nasrudin, ambos, os bons e os maus momentos, passarão. 

Se depois de ver o filme quiser conversar sobre isso, é só marcar a sua conversa sistêmica gratuita.  

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3 Comentários

  1. Que texto incrível, nos leva a reflexão. Parabéns!

  2. Paty, amei seu texto.!

    De início achei curioso, o que me despertou a vontade de assistir.
    Assisti o filme e consegui enxergar exatamente o que vc apontou. E confesso que isso dá um pouco de medo e ao reler seu texto hj, ponderei algumas atitudes que venho tendo.

    Se fomos deixar sermos levados pelos critérios impostos pela sociedade, infelizmente, iremos adoecer mais rápido e de forma mais agressiva que o natural.

  3. Obrigada Nara!


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