Bert Hellinger faleceu em 19.09.2019, poucos dias antes dos International Hellinger Days em Bad Reichenhall, o encontro anual da Hellinger Sciencia. Foram dias marcados por uma profunda reverência ao mestre e muita reflexão sobre a sua frase: com o fim vem o começo. 

Durante nossas vidas vivemos muitos fins e muitos começos, e é assim que a vida flui e se desenvolve.

Quando conversei sob um olhar sistêmico esta semana com Marcela Sholl sobre seu momento de vida, ao final ela compreendeu que a consciência que trouxemos à tona já era sentida pela sua alma e seu coração, e me contemplou com um texto que ela criou logo após o nascimento de seu filho, em perfeita consonância com o entendimento advindo da nossa conversa.

Compartilho aqui o seu texto, de forma autorizada, para que todos possam sentir a beleza das ordens naturais da vida. Na foto que ilustra o post, Marcela amamentado o filho na casinha simples da família na roça, como eles escolheram viver.


LUTO DE MIM MESMA por Marcela Sholl

Do alto da minha pilha de privilégios, amamento o meu filho.

Enquanto as fisgadas doloridas que sinto levam leite à boca faminta do meu bebê, eu penso em todo o sofrimento que tantas mulheres, de tantas épocas e lugares sentiram antes de eu chegar até aqui. E, de repente, me sinto conectada a esse coletivo feminino, que gerou gerações e que trouxe a humanidade a esse momento na cronologia da história. Penso na minha mãe, nas minhas avós, uma delas refugiada, que atravessou o atlântico em um navio precário, amamentando sua filhinha bebê e com um filho pequeno. A outra ficou viúva enquanto gestava meu pai. Que força que elas tiveram. Penso nas minhas bisavós e nas mães delas, que passaram por gestações seguidas, de muitos filhos, e cuidaram de lares cheios de gente. Que perderam filhos pequenos pra doenças que hoje são facilmente tratadas, ou já foram erradicadas. Penso nas mulheres de outras épocas, séculos, milênios. Nas mulheres de outras culturas, etnias, de outras classes sociais, silenciadas, solitárias, sofrendo sem acesso ao mesmo conhecimento, apoio e conforto que eu tenho.

Enquanto eu tento sublimar o conjunto de dores físicas que eu ainda sinto, tento me encontrar dentro do turbilhão de preocupações e sentimentos intensos que eu adquiri desde o momento em que ouvi o choro do meu filho recém-saído de dentro de mim. Ele, que passou 9 meses crescendo no meu ventre, agora é um indivíduo, avulso, solto no universo, mas ainda tão dependente e conectado a mim. Eu já imaginava que seria assim, mas só descobre o que é ser salgado, o rio que desagua no mar. E é nessa imensidão de águas turbulentas que eu me integro à minha ancestralidade, a todas as mulheres que já vivenciaram essa fase, cada uma à sua experiência, à deriva nessa nova e transformadora realidade.

É na solidão do desconhecido que eu me sinto mais próxima de todas as fêmeas mamíferas que já habitaram esse planeta.

Parir é morrer para que uma mãe possa nascer. E, assim, dois recém-nascidos se conectam e, juntos, tentam aprender a sobreviver, a entender seus sentimentos, a se comunicar e a absorver as dores e os prazeres do mundo.

Eu agradeço imensamente todas as mulheres que me cercam e admiro cada dia mais a força feminina. Todo dia é dia de celebrar a vida e a grandiosidade de ser mulher.

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